PUBLICIDADE
Brasil /
SEGURANÇA

Homens escondem tags rastreadoras para perseguir mulheres: ‘Usam os filhos’, aponta delegada

Titular da 1ª DDM de SP, Cristine Costa explica que casos chamam atenção pela forma como os agressores estão criando mecanismos de monitoramento
Tags são escondidas e utilizadas para perseguir mulheres. Foto: Arquivo pessoal
Titular da 1ª DDM de SP, Cristine Costa explica que casos chamam atenção pela forma como os agressores estão criando mecanismos de monitoramento

Estadão Conteúdo

26/06/26
às
15:41

- Atualizado há 16 segundos

Compartilhe:

Pequenos, baratos e vendidos originalmente como ferramentas para localizar objetos perdidos, dispositivos de rastreamento por Bluetooth, tags e similares passaram a aparecer em investigações de violência contra a mulher. Em São Paulo e no Pará, denúncias mostram que os aparelhos têm sido usados por homens para monitorar e perseguir ex-companheiras após o fim de relacionamentos.

Os casos chegam às autoridades em meio ao crescimento dos registros de perseguição contra mulheres. Dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) de São Paulo mostram que, de janeiro a abril, foram registrados 14.589 casos de perseguição envolvendo vítimas mulheres, alta de 29,7% em relação ao mesmo período de 2025, quando houve 11.241 ocorrências.

Para receber as principais informações do dia pelo WhatsApp entre no grupo do Portal Nosso Dia clicando aqui

Em 5,6 mil registros deste ano, as pessoas mencionadas possuíam envolvimento amoroso; em 3.258 casos, união estável; e em mais de mil, casamento.

A delegada Cristine Costa, titular da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de São Paulo, afirma que os casos envolvendo dispositivos de rastreamento, embora ainda pontuais, refletem uma adaptação das estratégias usadas por agressores para monitorar vítimas.

“Esses casos vêm chegando de forma bem pontual na unidade já há algum tempo, mas chamam atenção porque a gente percebe que o autor vai criando mecanismos para monitorar a vítima. Quando a gente descobre um, começa a ir para cima, ele migra para outro. É como a conduta criminosa, de uma maneira geral”, disse Cristine.

Segundo ela, antes dos dispositivos físicos, eram mais comuns casos envolvendo aplicativos espiões instalados clandestinamente em celulares. Com a evolução dos sistemas de segurança dos aparelhos, os métodos mudaram.

“Antes, a perseguição era muito presencial. Ainda é. A maioria esmagadora ainda é presencial. Mas a gente já percebe um aumento dos casos de perseguição por outras formas. E tag seria uma delas.”

Cristine ressalta que o ponto central é a ausência de consentimento. “O que a gente está falando aqui são de acessos não autorizados. Que configuram o crime de perseguição.”

Uso dos filhos como justificativa

Entre os episódios que chegaram à delegacia, um chamou a atenção da delegada porque o rastreador foi escondido na mochila de uma criança.

“É um crime complicado. Eles usam os filhos e sempre justificam que colocaram para monitorar a criança por uma questão de segurança. Mas isso tem de ser combinado”, acrescentou.

Os casos em São Paulo não são isolados. Em Belém, na capital paraense, uma mulher procurou a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) relatando que, após o fim do relacionamento, passou a sofrer monitoramento constante, contatos insistentes e tentativas de controle sobre sua rotina.

Segundo o boletim de ocorrência, a vítima afirmou ter encontrado um dispositivo de rastreamento instalado na parte inferior do veículo, preso por sistema magnético e envolto em fita isolante. Ela também relatou que o ex-companheiro realizava ligações repetidas, buscava informações sobre sua rotina por meio de terceiros e utilizava os filhos do casal como forma de pressão emocional.

Nesse caso específico, a Justiça concedeu medidas protetivas de urgência, determinando distância mínima de 100 metros, proibição de contato e restrições de aproximação. Na contestação apresentada posteriormente, a defesa sustentou que os contatos estavam relacionados ao exercício da paternidade e ao acompanhamento dos filhos, um deles diagnosticado com transtorno do espectro autista (TEA).

A justificativa aparece de forma semelhante em casos acompanhados pela advogada Jamille Saraty, especialista em Direito de Família em Belém. Ela relata ter atuado em dois processos envolvendo tags escondidas em veículos de mulheres após a separação. Em um dos casos, o dispositivo estava escondido sobre o pneu do carro. No outro, entre o assoalho e o tapete.

Dispositivo foi encontrado próximo da roda do veículo.
Dispositivo foi encontrado próximo da roda do veículo. Foto: Arquivo pessoal

“Os dois homens colocaram infiltrado mesmo, de má-fé. Não foi pedido, não foi avisado, simplesmente foi colocado lá para que eles pudessem ter o controle de onde aquela mulher estaria”, afirmou.

Em um dos processos, o ex-companheiro alegava que precisava saber onde estavam os filhos. No outro, sustentou que o rastreamento tinha finalidade de segurança. Jamille afirma que o uso dos filhos como justificativa é recorrente.

Segundo a advogada, uma das clientes só percebeu que estava sendo monitorada quando profissionais de uma clínica que atendia seus filhos passaram a demonstrar preocupação com o comportamento do ex-companheiro.

“Ele mandou mensagem para a clínica. E disse: ‘fala a verdade, se a fulana está aí ou não’. E elas mandaram um WhatsApp para a minha cliente dizendo: ‘A gente está assustada. Porque acho que ele pode fazer alguma coisa com a senhora’.”

A defesa de um dos homens chegou a sustentar nos autos que as condutas representavam “paternidade responsável”, argumento que a advogada considera uma tentativa de justificar comportamentos de controle.

Crime de perseguição

Para especialistas, o uso dos dispositivos se enquadra, em primeiro lugar, no crime de perseguição, conhecido popularmente como stalking. A delegada Cristine Costa ressalta que os efeitos costumam ir além do monitoramento em si.

“Rotineiramente, repetidamente, esse tipo de atitude é óbvio que abala emocionalmente essa mulher.” Segundo a delegada, dependendo das circunstâncias, a conduta também pode configurar violência psicológica contra a mulher.

“Além do crime de perseguição, você pode ter também o crime de violência psicológica. E a violência psicológica, quando ela é praticada por meios eletrônicos, ela tem um aumento de pena.”

Os números indicam que a perseguição tem se tornado um fenômeno cada vez mais frequente no País. Pesquisa Visível e Invisível, realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Datafolha, mostra que a proporção de mulheres brasileiras que relataram ter sido perseguidas ou rastreadas passou de 9,3% em 2017 para 16,1% em 2025.

O levantamento mais recente da pesquisa ouviu mulheres com 16 anos ou mais em todo o País e questionou as entrevistadas sobre situações de violência vividas nos 12 meses anteriores à coleta de dados, entre fevereiro de 2024 e fevereiro de 2025.

Já o Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que os registros de perseguição contra mulheres cresceram 18,2% em 2024 na comparação com o ano anterior, totalizando 95.026 vítimas. No mesmo período, os casos de violência psicológica registrados pelas polícias também aumentaram, passando de 48.599 ocorrências em 2023 para 51.866 em 2024, alta de 6,3%.

Denunciar para romper o ciclo da violência

Para Cristine, o crescimento dos registros também indica que mais mulheres têm reconhecido os sinais iniciais da violência e procurado ajuda antes da escalada para agressões mais graves.

“Quando ela me procura numa perseguição, numa ofensa verbal, numa ameaça, ela se antecipa a uma escalada criminosa do autor. Então consegue interromper esse ciclo de violência.”

A orientação, segundo a delegada, é que mulheres que desconfiem de monitoramento guardem mensagens, prints e outros indícios, façam verificação em veículos, bolsas e objetos dos filhos e procurem imediatamente a polícia.

“Se ela perceber algum desses elementos, algum desses indícios, que ela procure uma delegacia de polícia e faça registro de ocorrência e peça medida protetiva”, concluiu.

TÁ SABENDO?

SEGURANÇA

© 2024 Nosso dia - Portal de Noticias