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Uma tradição presente em escolas de aviação e aeroclubes brasileiros voltou ao centro das discussões nos últimos dias. Conhecido como “banho de óleo”, o ritual marca, em muitas instituições, a realização do primeiro voo solo de um aluno — um dos momentos mais importantes da formação de um piloto. A prática, porém, ganhou repercussão nacional após a morte do engenheiro Gustavo Henrique Lara, de 27 anos, em Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná.
O primeiro voo solo é considerado um marco na carreira de qualquer piloto, pois representa a primeira vez em que o aluno assume sozinho o comando da aeronave, sem a presença do instrutor. Para celebrar essa conquista, algumas escolas mantêm o chamado “banho de óleo”, um rito de passagem que consiste em despejar óleo lubrificante utilizado em motores de aeronaves sobre o piloto recém-“solado”. A prática, no entanto, não faz parte das exigências da formação aeronáutica nem possui regulamentação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Segundo historiadores e integrantes da comunidade aeronáutica, o ritual surgiu há décadas como uma forma simbólica de dar as boas-vindas ao novo piloto. Uma das versões mais difundidas atribui sua origem a um episódio envolvendo Santos Dumont, que teria sido atingido por óleo após problemas mecânicos em uma de suas aeronaves. Embora não exista comprovação histórica definitiva para essa narrativa, ela ajudou a consolidar o simbolismo do óleo como uma espécie de “batismo” na aviação.
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Ao longo dos anos, o ritual passou a fazer parte da cultura de diversos aeroclubes e escolas de aviação, embora sua realização varie conforme a instituição. Em alguns locais, o óleo foi substituído por água, espuma ou outras formas de comemoração consideradas menos agressivas. Em outros, a tradição foi abandonada completamente, especialmente diante das preocupações relacionadas à saúde, ao meio ambiente e à segurança dos participantes.
A discussão ganhou força após a morte de Gustavo Henrique Lara. O engenheiro havia acabado de realizar seu primeiro voo solo quando participou do ritual. Logo após receber o banho de óleo, passou mal, foi socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas morreu no hospital. As informações preliminares indicam que ele sofreu uma reação alérgica grave, embora a causa da morte ainda seja investigada pela Polícia Civil do Paraná.
O instrutor responsável por despejar o óleo foi preso em flagrante por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, mas foi liberado após pagamento de fiança. A investigação deverá esclarecer se houve negligência, qual substância foi utilizada no ritual e se ela teve relação direta com a morte do aluno. Exames periciais, toxicológicos e químicos foram solicitados para auxiliar na apuração dos fatos.
O caso também levou a Anac a se manifestar. A agência reforçou que óleos e lubrificantes aeronáuticos não devem entrar em contato com a pele e destacou que o “banho de óleo” não integra o processo oficial de formação de pilotos nem faz parte de qualquer procedimento regulamentado.
A tragédia reacendeu o debate sobre a permanência de tradições na formação aeronáutica. Embora muitos pilotos considerem o “banho de óleo” um símbolo de integração e conquista, especialistas defendem que celebrações como essa podem ser adaptadas para preservar seu significado sem expor alunos e instrutores a riscos desnecessários.