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A partir de 26 de maio de 2026, todas as empresas brasileiras passam a ser fiscalizadas sob a nova redação da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que incorpora expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). O Ministério do Trabalho e Emprego define esses fatores como aspectos da organização do trabalho, do ambiente social e das interações humanas com potencial de causar danos à saúde física e mental dos trabalhadores, o que inclui o uso contínuo de tecnologia e redes sociais como vetor de tensão no cotidiano corporativo. A partir da data, o descumprimento pode gerar autuação da Inspeção do Trabalho e exposição no contencioso trabalhista.
O contexto chega em um momento de tensão nos indicadores de gestão de pessoas. A pesquisa Tendências em Gestão de Pessoas 2026, do ecossistema Great People & GPTW, mostra que 98,1% dos respondentes no Brasil consideram a saúde mental e emocional um ponto relevante para a gestão de pessoas, e 63,3% afirmam ter orçamento dedicado ao tema. O Ministério da Previdência Social registra 472 mil afastamentos por transtornos mentais em 2024, o maior número em uma década, com crescimento de 68% em relação ao ano anterior. No começo de 2026, o Ministério da Saúde iniciou a fase piloto da Pesquisa Nacional de Saúde Mental (PNSM-Brasil), primeiro estudo de base populacional voltado exclusivamente ao tema.
No mesmo intervalo, a Geração Z consolida sua presença no mercado de trabalho trazendo uma convivência digital que não cabe mais nos protocolos antigos de gestão. Levantamento da ABRH-SC e Fiesc, publicado em fevereiro de 2026, aponta que 14,2% dos profissionais de RH consultados consideram urgente a criação de ambientes psicologicamente seguros, com fatores intensificados pelo uso permanente de tecnologia e redes sociais. O cruzamento entre nova regulação, pressão psicossocial e entrada massiva de nativos digitais cria um problema novo de gestão: o comportamento online dos colaboradores deixa de ser assunto de política interna isolada e passa a integrar a arquitetura de riscos corporativos.
A Solucz opera dentro dessa lógica há anos. Certificada como Great Place to Work por seis anos consecutivos, a companhia mantém o Pausa, programa interno de saúde mental e bem-estar que reúne apoio psicológico contínuo, sessões de massoterapia e práticas regulares de meditação integradas à rotina das equipes. Coordenado pela psicóloga Maria Luiza Bruzamolin, o programa nasceu da percepção de que operar em cobrança exige profissionais em condições emocionais reais de sustentar conversas com clientes em momentos de tensão, e antecipa em anos a obrigatoriedade que a nova NR-1 agora formaliza.
Para Maria Luiza, o novo arranjo regulatório pode acelerar no mercado um movimento que, na escuta terapêutica dentro das empresas, já se manifestava muito antes. “Quem trabalha com apoio psicológico em empresas vê há anos aquilo que a NR-1 agora traz para o campo regulatório. O uso contínuo de redes sociais, a sensação de exposição permanente e a dificuldade de separar vida profissional e pessoal adoecem em silêncio, quase sempre sem um lugar institucional para serem nomeados. A nova norma obriga as empresas a criarem esse lugar.”
A psicóloga observa que a Geração Z, frequentemente descrita como instável pela gestão tradicional, funciona na verdade como indicador antecipado do modelo de trabalho que a regulação começa a formalizar.
“A Geração Z não tem medo de verbalizar o que sente. Isso é lido por muitos gestores como fragilidade, mas na escuta é o oposto: é letramento emocional. Empresas que tratam esse letramento como problema vão continuar perdendo pessoas. Empresas que reconhecem esse letramento como ativo constroem lideranças melhores e ambientes onde o comportamento digital deixa de ser foco de atrito e passa a ser parte da cultura.”

Com a proximidade do Dia do Trabalho, em 1º de maio de 2026, e o início da fiscalização da nova NR-1 poucas semanas depois, a discussão sobre convivência digital no ambiente corporativo deixa de ser tema de bem-estar para se tornar agenda estruturante. Em um mercado que combina pressão regulatória, recorde histórico de afastamentos por saúde mental e chegada contínua de nativos digitais, a forma como as empresas tratam o comportamento online dos colaboradores passa a compor a fotografia oficial de como essas empresas gerenciam risco e cultura.