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“Luto não é esquecer, é lembrar”, diz psicólogo que ajuda a lidar com a morte

Lucas Grabarski faz parte do grupo de apoio aos enlutados do Cemitério Vertical, que oferece suporte emocional em um dos momentos mais difíceis da vida
Lucas Grabarski faz parte do grupo de apoio aos enlutados do Cemitério Vertical, que oferece suporte emocional em um dos momentos mais difíceis da vida

Marina Sequinel

17/06/22
às
12:04

- Atualizado há 3 anos

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“Diferente do que as pessoas imaginam, o luto não é esquecer, é sempre lembrar. A gente não quer esquecer nunca”. A frase simples, mas cheia de reflexões, é do psicólogo Lucas Grabarski. Há um ano e meio, ele participa do grupo de apoio aos enlutados do Cemitério Vertical de Curitiba, localizado no bairro Tarumã.

Uma vez por semana, o profissional atende diversas pessoas no local, em até oito sessões. O trabalho tem como objetivo ajudar entes queridos a passar por um dos momentos mais delicados na vida do ser humano: a morte de quem amamos. E isso só é possível, segundo o psicólogo, a partir do momento em que deixamos de enxergar esse fenômeno como um tabu e criamos coragem para encará-lo de frente.

“No geral, a gente posterga essa questão até o último e isso se reflete, de certa maneira, na nossa cultura. A morte é um tema mal encarado. E, quando vamos falar sobre ela, sempre tem aquele indivíduo que sugere que troquemos de assunto, por ser muito pesado ou difícil”, esclareceu Grabarski em entrevista ao Portal Nosso Dia.

Apoio ao enlutado é oferecido pelo Cemitério Vertical de Curitiba (Foto: Divulgação)

De acordo com ele, é justamente por isso que uma série de tradições culturais muitas vezes não condizem com as necessidades psicológicas de uma pessoa enlutada. Um exemplo é a ideia de lidar com a morte em apenas sete dias e o consequente discurso: “deixe isso para lá, pare de chorar, levante e bola para frente”.

“É claro que o familiar que faz essa sugestão está com a melhor das intenções, pois quer que o enlutado se recupere o quanto antes e dê continuidade na própria vida. Mas o fato é que isso precisa sair. Esse choro, esse pesar, precisa ser manifestado, porque é uma maneira de processá-lo”, completou o psicólogo.

Separar a dor da memória

Tentar ignorar a dor e encurtar “na marra” o momento para refletir sobre a morte só causará o efeito contrário. Afinal, como disse Grabarski, o luto não é esquecer, é lembrar. É lembrar da pessoa amada, é contar em voz alta para alguém a história dela, os momentos mais felizes ou os nem tão felizes assim. É compartilhar o legado que ela deixou. Não o financeiro, mas o emocional: as risadas, os beijos e abraços, as lições para a vida, aquela receita que só a pessoa sabia fazer com maestria, as palavras de conforto nos momentos tristes.

Uma vez por semana, Grabarski atende diversas pessoas no grupo de apoio. (Foto: Arquivo pessoal)

“Recordar tudo imediatamente após a morte causa angústia. A lembrança está contaminada, impregnada com o sofrimento da perda. O processo de luto nada mais é do que separar a dor das memórias que não queremos perder. A dor faz parte, mas, ao longo do tempo, ela deixa de ser um elemento necessário e não é mais bem-vinda”, explicou Grabarski.

O caminho mais eficiente para isso é não guardar tudo para si, mas sim falar. Encontrar alguém com quem o enlutado sinta-se à vontade para conversar e se lamentar, sem culpa ou vergonha. “Uma das perguntas que eu sempre faço para os pacientes é se eles têm uma pessoa com quem possam chorar, sem apressar o luto e a dor. Quando eles dizem que não, eu faço questão de lembrar que os nossos encontros são também para isso”, reforçou.

Da mesma forma, esse conselho é importante para aqueles que não sabem como agir ou acolher um familiar em sofrimento. O ideal é não interromper as lágrimas e ouvir com atenção. O silêncio pode ser um aliado mais poderoso do que palavras que não dizem muita coisa.

(Imagem ilustrativa/Foto: Marcelo Casal Jr – Agência Brasil)

Além disso, ao falar sobre o assunto e não engolir o choro, a pessoa passa a respeitar e aceitar o processo de luto, que deve ser vivido. De acordo com Grabarski, é necessário entender que, em momentos como esse, não há nada de errado em se sentir triste, indisposto e não conseguir completar os afazeres do dia a dia.

“Essa é uma manifestação natural. Não precisamos nos assustar ou lutar contra. Embora a racionalidade nos permita reconhecer que houve o falecimento, existe outra parte de nós que insiste em não acreditar que aquilo aconteceu. Isso precisa ser dito em voz alta, repetidas vezes: ‘eu não queria, eu não queria, eu não queria’. Quer dizer, manifestar essa parte emocional, trazê-la à tona, e confrontá-la com a realidade”.

O choro e a força de uma mãe

Esse é o difícil processo pelo qual Inês Vargas Pellanda, de 72 anos, passa há três meses. Moradora de Curitiba, ela perdeu o filho Alexsandro, 42, no dia 14 de março deste ano e, desde então, uma dor inimaginável se tornou constante na vida dela.

Mesmo que ainda não tenha passado por completo, o sofrimento encontrou um lugar para se manifestar: o grupo de apoio aos enlutados do Cemitério Vertical, onde o filho foi velado e cremado. “Na semana seguinte ao falecimento, o pessoal da administração ligou oferecendo esse trabalho para a família e eu aceitei. Eu nem fui procurar, foram eles que convidaram, e eu achei isso muito bonito. Ainda mais que nessa hora a gente fica tão abalada e fragilizada que nem sabe onde buscar ajuda”, relatou ela.

Ter alguém com quem chorar é um dos passos mais importantes para o processo do luto. (Imagem ilustrativa/Pixabay)

Inês, então, completou as oito sessões com uma psicóloga do grupo. Realista, ela sabe que a ideia do apoio não é solucionar o luto de vez, mas buscar alento em um ombro amigo.

“No caso da morte, você não encontra uma solução. Não existe. O meu filho não vai voltar nunca mais. E eu tenho que conviver com a ausência física dele. Ninguém mais tem que conviver com isso. Eu que tenho. E preciso buscar ajuda em outras pessoas, um carinho, uma palavra de conforto. Isso é necessário. Ninguém nessa vida é autossuficiente”, disse, bastante emocionada.

Assim como sugeriu Grabarski, a idosa não segura as lágrimas. Por meio da terapia, ela entendeu que viver o luto é importante. “Eu sinto falta dele. Nesses três meses sem o meu filho, eu chorei todos os dias. Com certa frequência, mais de uma vez por dia. É um choro de saudade daquilo que eu nunca mais vou ter nessa vida, que é a presença, o sorriso, o carinho, o abraço do meu Alexsandro”.

Apesar de ter tido o coração dilacerado pela morte do filho, Inês segue caminhando. Mãe de outros três adultos, ela é católica e reza todas as noites antes de ir para a cama. “Hoje, eu frequento a igreja muito mais do que antes e continuo com os meus afazeres diários. Eu estou sempre com um lenço para enxugar os olhos, mas durmo bem depois das minhas orações. Porque eu sei que o meu filho está com Deus e está comigo. Eu só não o vejo, mas ele está”.

A força de Inês mostra que, por mais que o processo do luto seja uma jornada árdua, ela não é impossível de se trilhar. Com a ajuda psicológica adequada, o caminho fica um pouco mais fácil. “Dia após dia, eu sigo para encontrar a paz. Até lá, o que eu posso passar para as pessoas nessa hora de tanto sofrimento é o seguinte: procurem viver fazendo o bem porque nessa vida ninguém fica para sempre”, concluiu.

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