
- Atualizado há 4 anos
Todos os dias, João Domingos Cardoso, de 51 anos, caminha cerca de 30 quilômetros pelas ruas de Curitiba para cumprir uma nobre tarefa. Acompanhado do fiel escudeiro, o cãozinho Rex, ele coleta material reciclável em diferentes áreas da cidade.
Por onde anda, seu Domingos, como é conhecido, exibe um banner com um número surpreendente: todo mês, 3 mil quilos de lixo vão parar no carrinho do catador. “O cartaz ficou muito bonito. Todo mundo acha interessante, chama bastante a atenção”, comentou ele em entrevista ao Portal Nosso Dia.
Natural de Ivaiporã, na região central do Paraná, ele se mudou para a capital em 1975, quando ainda era criança. Hoje, mora no bairro Prado Velho e vive com a esposa e dois filhos, um de nove e outro de 24 anos. Assim como muitos brasileiros e brasileiras, catar recicláveis foi o modo que ele encontrou para sobreviver.

Até pouco tempo, porém, quem via seu Domingos na rua não fazia ideia da dimensão do trabalho que ele desempenha. Na correria do dia-a-dia, as pessoas sequer param para pensar nas dificuldades que os catadores enfrentam ou até mesmo na falta que eles fariam. A invisibilidade, infelizmente, é uma constante.
A chance de mudar essa realidade surgiu para Domingos no ano passado, quando ele foi abordado pelo estudante de Gestão Pública, Matheus Lara, de 27 anos. “Ele chegou, explicou o projeto para mim e perguntou se eu estava interessado. Eu disse que ia pensar, e nós trocamos telefone”, relatou o catador de recicláveis.
Não demorou muito para que seu Domingos decidisse participar do projeto Reciclajuda, idealizado por Matheus. A ideia é simples: um cartaz é colocado no carrinho dos catadores, como forma de apresentá-los para a sociedade e garantir mais visibilidade ao trabalho deles. Do outro lado, empresas podem contratar o serviço dessas pessoas e patrociná-las. De quebra, têm a marca divulgada no carrinho, ganhando destaque pelas ruas de Curitiba.
Essa troca permite com que o catador leve mais dinheiro para casa no final do mês. “Não ajuda só eu, como também o próximo, né? A gente vai divulgando o projeto, aumentando os patrocinadores e conseguindo auxiliar mais famílias. É muito bom. Além disso, dá para ganhar um dinheirinho a mais para comprar uma mistura ou pagar o gás”, completou seu Domingos.
Ver a iniciativa dando resultado é uma alegria para Matheus Germano Lara, ainda mais porque o Reciclajuda tem tudo a ver com a história de vida do estudante. Ele cresceu em uma área de periferia próximo ao Parque Tingui, na capital, em uma casa com 10 pessoas.
“Como essa era a minha realidade, desde cedo eu identificava muitas coisas. Eu também trabalhei muitos anos como servente de pedreiro, montei casas… Então, a vida sempre foi de trabalho braçal. A da minha família também. Eu cresci com a visão da valorização desse tipo de serviço e vi de perto o que a miséria faz com as pessoas”, disse o idealizador do projeto.
Quando tinha 15 anos de idade, Matheus sofreu um acidente enquanto trabalhava como roçador em um sítio. Uma árvore caiu e o atingiu no ombro, e ele precisou parar de fazer serviços braçais. Começou, então, a procurar emprego no centro de Curitiba.
“Eu almoçava no bandejão da prefeitura e lá conheci vários catadores de recicláveis. Passei a conversar com essas pessoas e vi que a história de vida delas era muito parecida com a da minha família. Eu criei uma ligação imediata com elas”, contou.
Depois de trabalhar em um call center, Matheus conseguiu uma vaga como vendedor de serviços de marketing digital. Foi aí que o mundo do empreendedorismo se abriu para ele. Logo, o rapaz passou no vestibular e começou a estudar Gestão Pública na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
O trabalho duro, no entanto, não ficou de lado. “Eu andava em bosques e praças, enchia um cesto com frutas, lavava tudo em casa e depois vendia no sinaleiro. Nisso, eu sempre via os catadores de recicláveis na rua”.
No início de 2020, em meio ao surgimento da pandemia, Matheus estava desempregado. Ele procurou, então, um grupo de empresários com quem fez amizade na época em que era vendedor. Compartilhou com eles o conceito do projeto e foi super bem recebido.
“Eu comecei a escrever e a montar vários modelos de negócio. Eu vi que a ideia do carrinho tinha um propósito muito grande porque mexia com as pessoas. Isso é um bom sinal, pois indica que é possível realizar alguma transformação, até mesmo na vida delas”, explicou.




Em 2020, o Reciclajuda finalmente saiu do papel. Ele nasceu como um conjunto de serviços que têm como meta contribuir com os catadores e os empresários, ao mesmo tempo em que gera economia e protege o meio ambiente. Além da publicidade nos carrinhos, o projeto conta também com coletas gratuitas em condomínios, graças ao apoio das empresas parceiras. Em troca, os moradores ganham voucher de descontos nesses negócios.
“Assim, nós também fomentamos o comércio local, ajudamos os empresários que sofreram com a pandemia e, o mais importante, garantimos a fonte de renda dos catadores”, afirmou o idealizador.
Como resultado disso, o projeto ainda oferece cursos de educação financeira para os catadores e tem parceria com várias ONGs no contraturno – para que os filhos e filhas dos trabalhadores não fiquem na rua.
Hoje, 30 catadores são beneficiados em Curitiba e região metropolitana pelo Reciclajuda, que tem ainda a participação de cinco cooperativas, além das empresas parceiras.
O empresário e engenheiro agrônomo João Paulo Roberto, de 38 anos, garante que fez uma ótima escolha ao entrar no projeto. Dono da empresa Acer Haus, do ramo de paisagismo, ele é patrocinador do trabalho do seu Domingos, citado no início da reportagem.

“Eu conheci o Matheus na Feira de Inovação da prefeitura de Curitiba. Ele me contou do projeto e eu achei muito bacana, principalmente porque eu vendo um produto que é para um mercado classe A, de alto padrão. É um artigo de luxo que tem um alto valor agregado. Além da contrapartida social que temos como empresário, que é a arrecadação de impostos e a geração de empregos, eu gostaria de algo a mais. Eu queria que o cliente, ao nos contratar, estivesse também contribuindo com projetos sociais”, explica.
Diante desse desejo, uma das iniciativas selecionadas por João Roberto foi justamente o Reciclajuda. “Eu acho que essa é uma forma muito bacana de retribuir a sociedade. Não só pela questão social, como também a ambiental. Nós estamos falando da coleta de materiais que seriam descartados. Hoje, o Brasil tem uma taxa de reciclagem altíssima não porque possui uma ótima política de resíduos, mas sim porque é uma forma de sobrevivência das pessoas que vivem na miséria”, pontuou.
Segundo o empresário, é essencial que esses trabalhadores tão importantes tenham um retorno digno do serviço que desempenham. “Por incrível que pareça, tem quem ache que eles são vagabundos, que não querem trabalhar, sendo que trabalham mais do que muita gente. Nós vivemos em um país onde boa parte da população vive abaixo da linha da pobreza, onde não há emprego de qualidade para todos. E as pessoas precisam sobreviver, precisam levar comida para casa. Infelizmente, a situação é essa, e a culpa não é delas”, comentou.
O que muitos não percebem, de acordo com Matheus, é que a desigualdade social é ruim para todos, não só para quem não tem boas condições de vida. “Eu sempre falo que um pobre a menos é um cliente ou um parceiro a mais para o seu negócio. Então, é muito ruim que aquela pessoa esteja passando por dificuldades. Para ela e para todos. Esse não é um problema só dela, é um problema nosso, sabe?”, concluiu.
É pensando nisso que cada um deve fazer a sua parte. Parece clichê, mas é verdade. Valorizar o trabalho de pessoas como o seu Domingos, por exemplo, já é um começo. “Eu sei o tanto que eu sou importante porque se não houvesse o gari, o reciclador, o nosso planeta não aguentaria mais três anos”, afirmou, com muita sabedoria.
Se interessou pelo projeto? Você pode saber mais no site ou na página do Instagram Reciclaajuda.
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