
- Atualizado há 3 anos
O rombo bilionário que levou a Americanas à recuperação judicial afeta não só os bancos e os grandes fornecedores. A varejista deve pelo menos R$ 875 milhões, em cálculos preliminares, para mais de 6 mil micro, pequenas e médias empresas que eram fornecedoras de produtos ou serviços. Sem receber as dívidas e com o caixa desfalcado pela inadimplência, algumas já começam a reduzir produção e a fazer cortes no quadro de funcionários.
Os cálculos foram feitos pelo Estadão com base na lista de credores entregue à Justiça e incluem diversos setores, como de alimentos, indústrias, editoras de livros, prestadoras de serviços de TI e manutenção. Não foram considerados na conta passivos trabalhistas, bancos, grandes empresas, sindicatos e associações, fundos, aluguéis e empresas de luz e internet.
Para as pequenas e micro empresas, que podem ter impacto mais forte do que as médias, a Americanas deve R$ 109,4 milhões. As dívidas nesse segmento, no documento da Americanas, variam entre R$ 10 e R$ 26 milhões. Do total de credores nessa categoria, 20 têm mais de R$ 1 milhão a receber e 102 aguardam pagamentos entre R$ 100 mil e R$ 1 milhão. O maior número de credores entre os pequenos (441) têm entre R$ 1 mil e R$ 50 mil a receber. Para outros 73 fornecedores, a Americanas deve entre R$ 50 mil e R$ 100 mil, e 315 arcam com dívidas de até R$ 1 mil.
A Ingram Micro Brasil, distribuidora americana de produtos e serviços de tecnologia da informação, é a maior credora entre as consideradas pequenas empresas listadas no documento oficial da Americanas – apesar de a dívida, de R$ 26,4 milhões, indicar uma empresa de porte maior. Procurada, a empresa, distribuidora de produtos da JBL, não quis comentar.
Na lista entregue à Justiça, a reportagem encontrou fornecedores que já receberam parte dos valores, mas continuavam como credores, e também algumas empresas que não foram incluídas no montante — o que reforça “inconsistências contábeis” reportadas por Sergio Rial ao deixar a presidência da varejista.
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Anunciado na primeira quinzena de janeiro, o rombo da Americanas já provoca um efeito dominó entre pequenos e médios fornecedores, que têm boa parte das receitas concentrada na varejista. Algumas estão reduzindo as operações, demitindo funcionários e buscando financiamento bancário para tentar compensar o desequilíbrio provocado pela suspensão dos pagamentos por causa do pedido de Recuperação Judicial.
“É como se alguém tivesse entrado na minha empresa, tirado 35% do meu caixa e saísse andando pela porta da frente. É mais ou menos desta forma como eu me sinto”, diz ao Estadão o proprietário de uma indústria de material escolar, de porte médio, que preferiu não ser identificado. A dívida da Americanas com a empresa equivale a pouco mais de um terço do seu faturamento.
No início da pandemia, o empresário selecionou os melhores clientes para escapar do risco de inadimplência que aumentaria com a crise sanitária. Das cinco varejistas mais seguras, a Americanas era a única cuja possibilidade de inadimplência seria zero. O resultado levou em conta o fato de a companhia ser auditada por uma empresa de renome como a PwC, ser listada na B3 e ter como acionistas os homens mais ricos do País – Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles.
Quando veio à tona a crise da Americanas, ele diz que tomou uma “cacetada”. “Estamos tentando achar o rumo, é uma situação dramática da minha companhia e de todos os que acreditaram nessa empresa”. No momento, ele tenta reduzir tudo. “Linhas de produção, pessoal, o que der para sobreviver.” Sem revelar números, afirma que as demissões serão significativas. Paralelamente, tenta renegociar pagamentos com fornecedores e buscar crédito nos bancos.
“Fomos pegos de surpresa”, afirma outro empresário, de pequeno porte, que produz artigos de cama, mesa e banho e também pediu anonimato. No momento, ele reduziu o ritmo de produção e tenta redirecionar as mercadorias que venderia para a Americanas para outros clientes.
Por ora, ele não planeja demissões nem busca financiamentos bancários. A empresa vai tentar cobrir o rombo com recursos dos sócios. “Esse valor vai fazer falta, é muito dinheiro e não se sabe se vamos receber e quando”, afirma o empresário. Sozinha, a varejista respondeu no ano passado por 10% das vendas da fabricante de artigos de cama, mesa e banho.
Há mais de 20 anos vendendo para a Americanas, ele conta que a cliente sempre foi importante pelo fato de comprar grandes volumes. “A Americanas dava poder de compra para o fornecedor.” O empresário diz que fazia parte da rotina da companhia pagar as dívidas com algum atraso, mas sempre quitava as pendências.
Fornecedora dos uniformes dos funcionários da Americanas em todo o País, a Porto Fabricação de Bandeiras e Serviços Ltda, do Rio de Janeiro, “foi salva pelo carnaval, do contrário o impacto na empresa teria sido grande”, disse Gilberto Porto, dono do negócio.
A empresa tem R$ 684 mil a receber e, segundo Porto, “se descapitalizou um pouco”. Como produz também bandeiras e estampas para escolas de samba, conseguiu manter os 35 funcionários, pois as encomendas para esse segmento foram grande. A Porto aguardava uma nova encomenda de uniformes pela Americanas, mas o pedido está travado. “A Americanas sempre pagou direitinho mas, a partir de agora, vai ser só com pagamento à vista”, diz o empresário.
Porto acredita que, por ser microempresário está na lista prioritária de pagamentos. “Tenho certeza de que vou receber, nem que tenha de esperar um ano, a não ser que Americanas quebre de vez, mas eu acho isso muito difícil de acontecer.” Na lista de credores, o grupo aparece com outro crédito de R$ 1,38 milhão, mas o empresário diz já ter recebido esse valor antes da Recuperação Judicial.
Como varejista, Caito Maia, CEO e fundador da Chilli Beans, rede do setor de ótica, avalia que a crise da Americanas terá desdobramentos sobre a cadeia de fornecedores e o varejo como um todo. “Existe um dano muito grande e ele é pior para os menores”, afirma, frisando que não tem qualquer relação com a Americanas.
Maia acredita que o efeito econômico nos próximos meses será muito sério. “Fico muito preocupado com essa situação”, afirma. Ele argumenta que o impacto decorre da retirada de fluxo de dinheiro das cadeias de produção, especialmente dos inúmeros pequenos e médios fornecedores.
“A dívida da Americanas provoca estragos junto aos pequenos num cenário no qual está muito difícil captar dinheiro no mercado, e não serão todos que vão conseguir sobreviver”, afirma o presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), Eduardo Terra.
Na sua avaliação, o tamanho do impacto negativo que a varejista provoca nas cadeiras de produção dos fornecedores depende do funcionamento da companhia nas próximas semanas e nos próximos meses. A sua percepção é de que os fornecedores estão hoje em compasso de espera, tentando avaliar a melhor saída: reduzir o tamanho do negócio, demitir ou abrir uma negociação com a companhia para manter o fornecimento de produtos mediante pagamento à vista.
“Tudo indica que com a recente aprovação de um empréstimo de R$ 2 bilhões, a operação da Americanas não vai parar”, diz Terra. Ele acrescenta que muitos pequenos fornecedores podem também aproveitar para vender para outros varejistas que ocuparam parcela de mercado deixada pela Americanas.
O Estadão procurou várias empresas da lista de credores, mas a maioria preferiu não se pronunciar e aguardar o andamento do processo.