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O corpo impôs limites cedo, mas a mente nunca se rendeu. Desde a infância, Charleston Roberto de Oliveira Mayer Júnior aprendeu que a Distrofia Muscular de Duchenne (DMD) afetaria seus músculos, não seus sonhos. Aos 21 anos, o jovem morador de Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, acaba de conquistar uma vaga no curso de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em sua primeira tentativa de vestibular, sem cursinho preparatório, superando desafios que vão muito além das provas acadêmicas.
Nascido em Curitiba, Charleston vive em Colombo desde 2009, cidade metropolitana onde construiu sua trajetória escolar e pessoal. Diagnosticado ainda criança com a distrofia, uma doença genética rara, degenerativa e progressiva, ele começou a apresentar os primeiros sinais entre os 5 e 6 anos de idade. Segundo a família, Charleston passou a ter quedas frequentes, fraqueza muscular e dificuldade para subir escadas e até mesmo correr. Aos 10 anos, perdeu a capacidade de andar e passou a utilizar cadeira de rodas, uma mudança profunda em sua rotina, mas não em sua vontade de aprender.

A educação sempre ocupou um lugar central em sua vida. Charleston iniciou os estudos no Colégio Passionista Rosário, no centro de Colombo, onde cursou do pré ao 9º ano do fundamental. As memórias da época são de acolhimento, respeito e apoio constante de professores e colegas, sendo esses fatores decisivos não apenas para seu desenvolvimento acadêmico, mas também emocional.
Depois, no Ensino Médio, escolheu não se acomodar. Fez prova para o Ensino Médio Técnico em Informática do Instituto Federal do Paraná (Campus Colombo), foi aprovado e concluiu os quatro anos do curso, reforçando, mais uma vez, sua vontade de crescer profissionalmente.
Após a conclusão do curso técnico, Charleston prestou vestibular para Sistemas de Informação, na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), e para Análise e Desenvolvimento de Sistemas, no IFPR. Adivinha? Aprovado nas duas ele optou por iniciar a graduação no IFPR, dando continuidade à sua formação acadêmica.
Em julho de 2024, no entanto, sua trajetória foi atravessada por um dos momentos mais delicados. No dia 31, em decorrência da progressão da doença, precisou ser internado no Hospital Santa Cruz, onde permaneceu 22 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). A experiência marcou profundamente sua vida e fortaleceu ainda mais seus vínculos familiares, além de provocar reflexões sobre o valor da vida, do cuidado e da dignidade humana.
A decisão de seguir o caminho do Direito nasceu dentro de casa. A mãe de Charleston, Alessandra Mara Rodrigues, pedagoga e ex-professora da rede municipal de Colombo, decidiu cursar Direito após enfrentar, ao lado do filho, as dificuldades impostas pela deficiência, pela dependência de terceiros e pela busca constante por acesso a tratamentos e direitos. Aprovada no exame da OAB ainda no último período da faculdade, Alessandra passou a ser uma referência diária de força, resiliência e compromisso com a justiça, assim como o pai de Charleston, que é homem de fé, trabalhador, presente e um pilar fundamental no apoio à família.
Vivenciando de perto as barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência e a ausência de políticas públicas efetivas, Charleston decidiu seguir os passos da mãe. Seu objetivo é atuar como advogado na defesa de um mundo mais justo, pautado pela equidade social e pelo respeito à dignidade humana.
Em 2025, prestou seu primeiro vestibular para Direito na UFPR. Mesmo sem cursinho preparatório e enfrentando severas limitações físicas — atualmente faz uso de ventilação mecânica 24 horas por dia e necessita de diversas terapias —, conquistou a tão sonhada aprovação. Para realizar o vestibular e o Enem, contou com o apoio de ledor e escriba, ditando todas as respostas, o que tornou o desafio ainda maior.
A notícia da aprovação foi recebida com emoção por toda a família, que enxergou na conquista não apenas um resultado acadêmico, mas o início de mais uma etapa a ser enfrentada com fé, força e perseverança. “Nosso sentimento é de orgulho e admiração por saber que Deus nos presenteou com um filho tão precioso”, afirmou Alessandra.
Charleston também faz questão de chamar atenção para uma realidade pouco conhecida: apesar da gravidade da doença, não recebe aposentadoria nem benefício assistencial, já que a concessão depende de critérios que vão além da patologia. Isso torna ainda mais árdua a luta de seus pais para garantir tratamentos, cuidados especializados e qualidade de vida.
Para que desconhece a doença, a doença enfrentada pelo futuro advogado é uma condição grave e progressiva, que afeta músculos motores, respiratórios e cardíacos, exigindo acompanhamento contínuo e multidisciplinar. O cuidado adequado é determinante para a dignidade, a sobrevida e a qualidade de vida do paciente.
Agora, aprovado no curso de Direito, Charleston inicia uma nova jornada. Para o novo calouro da UFPR o sentimento é de emoção e ansiedade pelo o que há por vir. Mas também, é um momento de preocupação para questões de acessibilidade dentro da universidade, já que o jovem precisa de auxílio de terceiros para frequentar as aulas dentro do curso.
Seu sonho vai além da advocacia: ele quer, no futuro, ser eleito como vereador do município de Colombo, para atuar na criação de leis, na fiscalização do poder público e na defesa dos interesses da população, especialmente as que têm qualquer tipo de deficiência.
A Distrofia Muscular de Duchenne é uma condição grave e progressiva, que afeta músculos motores, respiratórios e cardíacos, e exige acompanhamento contínuo e multidisciplinar. O cuidado adequado faz toda a diferença na dignidade, na sobrevida e na qualidade de vida do paciente.
A doença afeta majoritariamente meninos com prevalência de 1 em cada 3.500 nascidos do sexo masculino.
A trajetória desse jovem e guerreiro morador de Colombo nos faz enxergar a mais pura e poderosa mensagem: quando a mente permanece livre, nenhuma limitação física é capaz de impedir a realização de sonhos construídos com fé, dedicação e coragem.