
- Atualizado há 10 segundos
Roberto Farias Tomaz, de 19 anos, que ficou desaparecido por quatro dias após se perder no Pico Paraná, afirmou ao Estadão que a confiança na amiga com quem fazia a trilha foi quebrada, mas disse que não a culpa pelo que houve. Ele relatou nesta terça-feira, 6, que pretende procurá-la para conversar e devolver pertences, mas negou ter sentido raiva no período em que esteve perdido.
“Ela me passou uma confiança, porém lá em cima ela quebrou legal essa confiança”, afirmou Roberto, minutos antes de receber alta do hospital onde estava internado, em Antonina, litoral do Paraná. Ele evita, porém, se estender nas críticas à garota, que foi alvo de ataques nas redes sociais por ter deixado o amigo para trás. Naquele momento, o jovem passava mal e caminhava mais devagar. “Eu me vejo magoado, mas não a culpo. Não tenho julgamento, não fico bravo com ela.”
Para receber as principais informações do dia pelo WhatsApp entre no grupo do Portal Nosso Dia clicando aqui
Thayane Smith Moraes, também de 19 anos, afirmou que tem um ritmo mais acelerado, mas admitiu que foi um erro não ter esperado o colega de trilha.
Roberto contou à reportagem que os dois subiram juntos o Pico Paraná, em Campina Grande do Sul, mas se separaram na descida, ainda na manhã do primeiro dia do ano. Segundo ele, a amiga seguiu com outro grupo e ele ficou para trás, passando mal. “Tive vômito lá em cima. (…) Não entendo por que ela desceu sozinha ou por que quis se arriscar também”, afirmou.
Ao se ver sozinho, Roberto entrou por um trecho errado da trilha e sofreu uma queda em um barranco íngreme, no início de uma cachoeira. Começou aí a luta pela sobrevivência. Passou dias caminhando por mata fechada, cachoeiras e correntezas, dormiu em grutas, se cobriu com folhas de árvores e diz ter alimentado apenas de uma ameixa.
O tenente-coronel Ícaro Gabriel, comandante do Grupo de Operações de Socorro Tático, disse ao Estadão que Roberto conseguiu sair da área de montanha depois de saltar de uma cachoeira de cerca de 20 metros de altura, considerada intransponível pelo Corpo de Bombeiros.
Mesmo após o resgate, Roberto relata não carregar ressentimento. “Eu só pensava na minha família e na minha fé. Não fiquei com isso no coração”, disse. Ainda assim, reconhece o impacto emocional do episódio. “É um baque.”
Quebrou a confiança, diz jovem abandonado por amiga em trilha no Paraná
Sobre a amiga, afirmou que pretende procurá-la assim que tiver condições. “Estou com a mochila dela. Em nenhum momento pensei em largar. Quero entregar e conversar. Dizer: ‘O que você fez, não faça com mais ninguém’. Às vezes, é bom a pessoa ter uma virada de chave. Tem gente que não tem noção”, avaliou.
Questionado sobre uma possível mensagem direta para ela, Roberto disse que ainda está se preparando emocionalmente: “Só agradeço que ela esteja com saúde. Se estiver em casa, estou feliz. Vou entregar as coisinhas pra ela e a gente vai ter a nossa conversa.”
Roberto subiu o Pico Paraná em 31 de dezembro, acompanhado de uma amiga, com a intenção de ver o nascer do sol no primeiro dia do ano. Após chegarem ao cume, o grupo iniciou a descida na manhã do dia 1º. Em determinado ponto do trajeto, ele foi abandonado pela amiga e se perdeu de outros trilheiros, seguindo uma sinalização equivocada, o que o levou para fora da trilha principal.
Segundo relato feito à família, ele escorregou em um trecho íngreme e não conseguiu mais retornar. A partir disso, passou a descer pela encosta, entrando em uma área de mata fechada e extremamente acidentada, fora do traçado usual das trilhas.
“Depois de uma descida, tinha um lugar com sinalização, e ele seguiu o lado errado. Foi ali que ele escorregou e não conseguiu mais subir”, contou a irmã ao Estadão, Renata Farias de Tomaz.
Ao seguir pela encosta, Roberto encontrou o leito do Rio Cacatu, ainda na parte superior da montanha. Sem conseguir voltar nem referência de trilha, acompanhou o curso do rio. Pouco depois, chegou à cachoeira de aproximadamente 20 metros de altura.
As equipes de buscas estimam que Roberto percorreu mais de 20 quilômetros em linha reta, mas a distância real pode ser bem maior, já que o trajeto seguiu curvas do rio e trechos de difícil progressão, com pedras escorregadias e desníveis constantes.
Ele foi resgatado depois de chegar caminhando a uma fazenda da CGH (Central Geradora Hidrelétrica) Cacatu, em Antonina. O rapaz recebeu alta médica na tarde desta terça.