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Por que não há missa na Sexta-Feira Santa?

No calendário litúrgico da Igreja Católica, esta é a única data do ano em que não há a celebração eucarística
(Foto: Pixabay)
No calendário litúrgico da Igreja Católica, esta é a única data do ano em que não há a celebração eucarística

Estadão Conteúdo

03/04/26
às
9:48

- Atualizado há 9 segundos

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Por um lado, é um dia revestido por uma incontestável aura de religiosidade cristã. Por outro, é a única data no calendário litúrgico em que a Igreja Católica não celebra a missa. A chamada Sexta-Feira Santa, a sexta-feira que antecede a Páscoa, é peculiar por causa de sua importância: é quando os católicos recordam a morte de Jesus, aquele que os cristãos veneram como filho de Deus e que teria sido executado por crucifixão.

“Muitas pessoas não entendem, não compreendem, porque nesse dia não se celebra missa. O motivo é porque nesse dia a Igreja Católica celebra a Paixão de Cristo, a morte de Cristo”, explica o padre José Carlos Pereira, antropólogo, sociólogo, teólogo e filósofo e autor de, entre outros livros, “Operários da Fé: A Vida do Padre Brasileiro e O Encantamento da Sexta-Feira Santa”.

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“Portanto, é um dia de luto, um dia em que a Igreja pede um silêncio sepulcral, absoluto”, acrescenta, lembrando que para os católicos também é ocasião para jejum, abstinência e meditação.

Tríduo pascal

Professor na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e diretor da instituição Lay Centre, também na capital italiana, o vaticanista Filipe Domingues enfatiza que a data é uma exceção. No calendário da Igreja Católica, a liturgia prevê celebração eucarística em todos os outros dias do ano.

“É realmente o único dia em que não há missa. E isso é parte do rito”, esclarece ele. A explicação está no chamado tríduo pascal, ou seja, uma celebração que alude aos sofrimentos e à morte de Jesus que começa na noite de quinta-feira e termina apenas na noite de sábado.

De forma simplificada, pode-se dizer que há uma grande missa que se inicia na noite de quinta e só termina na noite de sábado, com a memória da ressurreição de Jesus. Nestes três capítulos, portanto, recorda-se o momento da Santa Ceia, em que, para os cristãos, Jesus institui a ideia da eucaristia; sua paixão e morte; e sua ressurreição para a vida eterna. Há uma simbolismo importantíssimo nisso. Para quem acredita, esta é a base do cristianismo.

“Na dimensão litúrgica, se trata de uma celebração única [de quinta a sábado], tanto que a missa de quinta-feira se encerra sem a bênção final”, pontua o teólogo Raylson Araujo, pesquisador na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Mas ele lembra ainda que há outra camada de interpretação: a ideia de que a missa é, em última análise, “a proclamação da resurreição” de Jesus. Assim, seria um contrassenso fazer tal celebração justamente no dia em que está evidente a memória da execução do personagem. “Seria incompatível”, sintetiza o padre Pereira.

Primórdios do cristianismo

Esta tradição remonta aos primeiros séculos do cristianismo, já que a memória da morte de Jesus e a crença em sua ressurreição estão na própria base dessa religião. “Não há uma data específica. Desde que a Igreja se estruturou como tal não há celebração na Sexta-Feira Santa”, diz Pereira.

Araujo acredita que a prática seja assim desde o século 4º, quando os cristãos começaram a deixar de ser perseguidos pelo poder romano. “A partir de então a liturgia foi ganhando mais características e se transformando nesse tríduo, mais ou menos no formato como temos até hoje”, conta.

Documento produzido pelo Concílio Vaticano 2º, série de encontros da cúpula da Igreja ocorridos de 1962 a 1965 que reformou e atualizou o catolicismo, reforçou a importância da Sexta-Feira Santa como data de resguardo e penitência, preservando-a da celebração eucarística.

“Se a Semana Santa é a mais importante do calendário litúrgico, seu ápice é a missa de sábado à noite, a mãe de todas as vigílias. Uma missa imperdível para todos os católicos”, ressalta Pereira, afirmando que para os cristãos o momento mais significativo é o que celebra a narrativa da vitória de Jesus sobre a morte e de sua presença, com caráter salvífico, entre a humanidade.

Sofrimento do mundo

Mesmo sem missa, a Sexta-Feira Santa é marcada por atividades religiosas importantes dentro do catolicismo. Embora não seja obrigatório, muitas comunidades fazem encontros nas igrejas na parte da manhã ou ao meio-dia com cultos mais breve, leituras, cânticos penitenciais e reza do terço. Às 15h, costuma-se ter a celebração da Paixão — que é parte do tríduo pascual. “É liturgia da palavra, não é eucarística”, salienta Pereira.

Na ocasião, a comunhão é oferecida — mas com as hóstias consagradas na celebração da véspera.

Outra praxe comum das Sextas-Feiras Santas ao redor do mundo é a dramatização da chamada via-sacra, reproduzindo os momentos que teriam sido vividos por Jesus a caminho da crucificação. Domingues usa o exemplo do evento realizado anualmente no Coliseu, em Roma, para ilustrar a importância social da programação. “É quando a Igreja vai tocar as feridas do mundo”, afirma.

“Aqui no Coliseu, sempre se recorda os sofrimentos contemporâneos. Neste ano, com certeza, vai se falar de guerra, de violência, de uma série de coisas assim. É um momento de solidariedade espiritual, que mostra que os cristãos não vivem uma fé desconectada”, conta Domingues.

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