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Por que chove muito em um bairro e quase nada em outro? Meteorologista explica como calcula quanto choveu

Sistema de baixa pressão provocou volumes irregulares no estado e revelou como funcionam os pluviômetros e as chuvas localizadas do verão
Foto: Yuri A. F. Marcinik/Simepar
Sistema de baixa pressão provocou volumes irregulares no estado e revelou como funcionam os pluviômetros e as chuvas localizadas do verão

Redação Nosso Dia

31/01/26
às
14:57

- Atualizado há 3 segundos

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Um sistema de baixa pressão provocou grandes volumes de chuva no Paraná nesta quinta-feira (29), mas um detalhe chamou a atenção: pluviômetros instalados a poucos quilômetros de distância registraram volumes completamente diferentes. Em alguns pontos, a chuva foi intensa; em outros, quase não houve precipitação. O fenômeno ajuda a explicar por que, no verão, pode chover forte em um bairro de cidade como Curitiba e não cair uma gota no outro.

Esse comportamento é típico das chamadas chuvas localizadas, comuns nos meses mais quentes do ano, quando calor, umidade e instabilidade atmosférica se combinam de forma rápida e imprevisível.

Como a chuva é medida?

Atualmente, o Simepar conta com mais de 140 pluviômetros próprios espalhados por todo o Paraná. Parte deles funciona de forma independente e outros estão integrados a estações meteorológicas e hidrológicas.

Além disso, o Simepar também acompanha dados de equipamentos de outras instituições, como o Cemaden, o Instituto Nacional de Meteorologia, o Instituto Água e Terra, a Sanepar, prefeituras e concessionárias.

Os equipamentos seguem rigorosamente as normas da Organização Meteorológica Mundial, tanto na instalação quanto na calibração e manutenção periódica.

O que acontece dentro do pluviômetro?

No laboratório de Curitiba, os testes são conduzidos pelo meteorologista Pedro Nazário. Segundo ele, o funcionamento do equipamento é mais simples — e mais curioso — do que parece.

“A chuva entra pela área de captação, que funciona como um balde. Depois passa por um funil e escorre de forma controlada sobre uma báscula, que age como uma balança”, explica.

Cada vez que a báscula se movimenta, ela libera a água acumulada. A contagem desses movimentos permite calcular o volume de chuva registrado. No padrão do Simepar, cada movimento equivale a 6,2 mililitros de água. A cada dez movimentos, o equipamento registra 2 milímetros de chuva.

Mas não é apenas o volume que importa. O tempo em que essa água cai faz toda a diferença.

Quando a chuva se torna perigosa?

A Coordenadoria Estadual de Defesa Civil utiliza parâmetros claros para classificar a intensidade da chuva:

  • entre 3,6 mm e 11,4 mm em 15 minutos: chuva moderada
  • entre 11,4 mm e 20 mm em 15 minutos: chuva forte
  • entre 20 mm e 28 mm em 15 minutos: chuva intensa
  • acima de 28 mm em 15 minutos: chuva extrema

Em outras palavras: não é só quanto chove, mas quão rápido a água cai.

Um litro por metro quadrado

Para facilitar o entendimento, Pedro Nazário explica uma relação simples: um milímetro de chuva equivale a um litro de água sobre um metro quadrado.

“Se jogarmos um litro de água em uma área de um metro quadrado, sem perdas por infiltração ou evaporação, formamos uma lâmina de exatamente um milímetro de altura”, detalha.

Exemplos que impressionam

Os dados desta quinta-feira (29) mostram claramente o comportamento irregular das chuvas de verão.

Em Antonina, duas estações do Simepar instaladas na mesma cidade registraram volumes bem diferentes: uma, próxima ao acesso ao Pico Paraná, marcou 4,8 mm durante todo o dia; outra, na região central, chegou a 13,8 mm.

Em Pontal do Paraná, o contraste foi ainda maior. O pluviômetro de Pontal do Sul registrou 40,2 mm ao longo do dia, sendo 11,6 mm em apenas 15 minutos, por volta das 21h30. Já em Praia de Leste, a menos de quatro quilômetros dali, o volume foi de 19,8 mm.

Esses dados mostram como a chuva pode ser intensa em um ponto da cidade e praticamente inexistente em outro.

Por que isso acontece?

O local exato da chuva depende de uma combinação quase perfeita de três fatores: umidade, instabilidade atmosférica e mecanismos de elevação do ar.

No verão, esses ingredientes mudam rapidamente. Em áreas urbanas, o asfalto, o concreto e a circulação de veículos aquecem o ambiente, fazendo o ar quente subir com mais intensidade e favorecendo nuvens de tempestade. Já regiões com mais vegetação liberam maior quantidade de vapor d’água, aumentando a umidade.

Os ventos, em diferentes altitudes, também influenciam diretamente a duração, o deslocamento e a força das tempestades.

Quando medir não é suficiente

Para setores como agricultura, energia e saneamento, saber apenas quanto choveu em um ponto não basta. É preciso entender onde choveu e como a precipitação se distribuiu em toda a área.

Por isso, o Simepar desenvolveu o conceito de chuva espacializada, que cruza informações de radares meteorológicos, imagens de satélite e estações automáticas. O sistema permite identificar padrões, avaliar impactos e auxiliar no planejamento e na gestão de riscos.

Esses dados estão disponíveis na plataforma Simeagro, utilizada por cooperativas e produtores rurais para tomada de decisões no campo.

No verão, quando o céu muda em minutos, entender como a chuva se forma — e por que ela escolhe exatamente onde cair — pode fazer toda a diferença.

TÁ SABENDO?

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