- Atualizado há 3 anos
“Dizem que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Mas no meu caso ele caiu”, disse o ex-marceneiro e artesão Márcio de Oliveira, de 43 anos, em tom de brincadeira. A história dele parece roteiro de filme: após dois incidentes distintos, ele perdeu totalmente a visão e precisou se reinventar para sobreviver.
Morador de Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná, Márcio hoje tem um ateliê, onde cria, produz e monta lustres. As peças chamam a atenção já de longe: são verdadeiras cascatas de pedrinhas transparentes, que ficam ainda mais charmosas com as lâmpadas acesas. As habilidades do artesão ganharam tanto destaque que algumas lojas da cidade passaram a exibir e vender os produtos dele.
Diante do sucesso, é difícil imaginar que essa leveza e bom-humor nem sempre estiveram com Márcio após a perda da visão. Nascido em Jaguariaíva, ele se mudou para Guarapuava aos 21 anos de idade, onde iniciou a carreira como marceneiro. “Eu montei uma fábrica e passei a produzir móveis planejados. Mas, até antes disso, eu já era pintor, letrista e desenhista. Fazia qualquer tipo de letreiro ou desenho na parede”, comentou ele em entrevista ao Portal Nosso Dia.
OS ACIDENTES
O negócio em Guarapuava ia bem e a vida seguia tranquila. Até que, no ano de 2010, algo completamente inesperado aconteceu. Márcio foi vítima de uma tentativa de assalto e levou um golpe de foice na cabeça. “Ela pegou bem no meu olho esquerdo e cortou o nervo óptico. Eu fui parar na UTI [Unidade de Terapia Intensiva] e fiquei uns três dias entubado”, relatou.
Assim que recobrou a consciência, ele descobriu que não conseguia mais enxergar com o olho esquerdo. Apesar da tragédia, se adaptou bem à visão parcial e continuou com os afazeres do dia a dia.
No entanto, como diz o próprio artesão, o raio contrariou o ditado e caiu duas vezes no mesmo lugar. Quatro anos depois do assalto, ainda em Guarapuava, Márcio dava carona para algumas pessoas quando o freio do carro pifou. “Eu acabei me perdendo em uma lombada e dei em cheio contra um muro. Sabe o que houve? No olho esquerdo não aconteceu nada. Já o outro, que era o olho bom, descolou todo com a pancada”.
Mais uma vez, Márcio foi parar na UTI. Quando voltou a si, ele tomou um choque: não conseguia ver mais nada. Mesmo assim, achou que aquilo era passageiro. “Eu não sabia que era tão sério. Depois que saí do hospital, fui em várias consultas médicas. Até que recebi o diagnóstico de que não voltaria mais a enxergar”, afirmou.
ADAPTAÇÃO
A partir daí, tudo mudou. No começo, Márcio ficou bastante revoltado e passou por uma depressão severa. “Eu achei que a vida não tinha mais sentido. Porque antes eu trabalhava, corria atrás e não parava. Aí, de repente, do dia para a noite, amanheço cego no hospital. Não foi um momento fácil. Mas Deus foi trabalhando com o meu coração, e as pessoas boas apareceram”, contou.
Um amigo notou o sofrimento do artesão e o chamou para conhecer a Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Visuais (Apadevi) de Guarapuava. Márcio aceitou o convite e um novo mundo se abriu diante dele. Lá, ele iniciou um intenso processo de “renascimento”: aprendeu Braille, o sistema de escrita usado por pessoas com deficiência visual; e redescobriu coisas triviais, como andar sozinho novamente.
“Eu enxerguei até os 35 anos de idade. Por isso, eu já conheço o mundo, as cores, as formas… Posso dizer que a adaptação foi rápida, até por eu ter sido marceneiro, pintor e letrista”, disse. A veia artística do artesão nunca deixou de pulsar, nem mesmo após os incidentes. Na Apadevi, Márcio decidiu se aventurar na sala de artesanato e aprendeu a fazer colares, pulseiras e chaveiros.
“Eu vi que Deus estava me dando o dom ali, o talento do tato, sabe? Aí a minha mãe começou a vender as peças que eu produzia, e eu tive um pequeno ganho. Entrava um dinheirinho e eu conseguia ir me mantendo. Até que cheguei nos lustres”.
MUDANÇA PARA PONTA GROSSA
Com a constante ajuda da esposa, que divulgava os produtos pelas redes sociais, Márcio logo notou o aumento no número de encomendas. Mas um detalhe se destacou: a maioria dos interessados morava em Ponta Grossa. Por isso, junto com a companheira, ele decidiu arriscar e tentar alavancar o negócio em uma nova cidade.
Em 2018, o casal se mudou e, após alguns contratempos devido à pandemia, finalmente abriu o ateliê que tanto sonhava, chamado Brilho Celestial. O primeiro lustre que Márcio vendeu já foi um baita desafio. “Um diretor da Universidade Estadual de Ponta Grossa me achou no Facebook e encomendou um lustre grande. Só que eu nunca tinha feito uma peça no sistema que ele queria. Então, disse que faria uma réplica em tamanho menor e, se ele gostasse, seguiríamos com o projeto”.
E não é que deu certo? Hoje, o lustre de 3,5 m de altura está no teto de uma das salas da universidade, logo acima de um piano. Apesar de grandioso, ele não é o maior já produzido pelo artesão. O primeiro lugar pertence a uma peça de 4 m de altura, com uma base de 70 cm por 1,5 m – que tem 18 mil pedrinhas de cristal.
Como se criar o conceito e montar o produto não fosse o suficiente, Márcio também ajuda a colocá-lo no teto. Ele sobe em um andaime que chega a 6m de altura e, tranquilamente, finaliza o serviço para o cliente. “A minha esposa segura a base por baixo, enquanto eu parafuso e ligo os fios na energia. Ainda monto as perninhas e os pêndulos. A única coisa que eu não tenho é a visão, mas o resto eu faço tudo”, garantiu.
PRECONCEITO
Apesar de ter feito as pazes com a nova condição e estar totalmente adaptado, Márcio ainda enfrenta muitas dificuldades. Uma delas é o frequente preconceito contra portadores de deficiência, que inúmeras vezes são vistos como “incapazes” pela sociedade.
“Eu já percebi que muitos clientes entram em contato comigo sem saber que eu sou cego. Aí quando a gente vai na casa da pessoa para fazer as medidas do lustre, ela muda de comportamento e até duvida do meu trabalho. Já aconteceu de quase me atropelarem de uma residência quando descobriram que eu não enxergava. Como se eu fosse um animal, um extraterrestre”, desabafou.
Exibir e vender as peças em outras lojas também foi uma artimanha que o artesão encontrou para driblar a discriminação. Assim, aos poucos, ele conquista o mercado. “Eu acredito que muitas pessoas preconceituosas vão querer comprar um produto meu no futuro. E eu não vou poder fazê-lo por não ter tempo, vou estar cheio de clientes”, comentou.
SONHOS
Com o ateliê bem estabelecido, o artesão quer dar um “chega pra lá” no preconceito e fazer ainda mais sucesso. Para isso, ele tem um projeto bem ousado. “Um dos meus sonhos é fazer um lustre para o Gusttavo Lima, para ele pendurar na sala de casa. Eu sou muito fã, sempre curti as músicas dele”, disse.
Além de presentear o cantor sertanejo, Márcio também pretende vender as peças para fora do Brasil e ganhar notoriedade internacional. “O dom, a honra e a glória são de Deus. Ele que me deu. Um lustre você compra hoje em qualquer lugar. Mas o que eu faço é obra de arte”, finalizou.
O ateliê Brilho Celestial Lustres fica localizado na Rua Silva Jardim, número 244, próximo à Biblioteca Municipal de Ponta Grossa. Quem quiser entrar em contato pode mandar uma mensagem pelo WhatsApp para o número (42) 99927-1716. Para acessar a página da empresa no Facebook, clique aqui.