
- Atualizado há 9 horas
A presença da inteligência artificial nas campanhas eleitorais de 2026 deve transformar a forma como candidatos se comunicam e como os eleitores consomem informação política. Se por um lado a tecnologia promete facilitar o acesso a dados e à comparação de propostas, por outro amplia o risco de manipulação digital em escala inédita. Estudo do Fórum Econômico Mundial aponta que, em 2024, a produção de deepfakes cresceu mais de 900% no mundo, sinalizando o tamanho do desafio que chega ao processo eleitoral brasileiro.
Para o especialista em Inovação e IA, Felipe Tod, o debate central está no impacto dessa tecnologia sobre a autenticidade das informações que circulam durante a campanha. “A questão central que se coloca é a utilização da inteligência artificial nas campanhas eleitorais e seus impactos. A IA oferece oportunidades, como otimizar a análise de dados e o monitoramento das mídias sociais, agilizando a identificação de informações relevantes sobre candidatos e governos. Isso pode resultar em maior eficiência na gestão de campanhas e na compreensão do cenário político”, afirma o especialista.
Tod destaca, porém, que o mesmo mecanismo que acelera o acesso ao conhecimento também pode ser usado para confundir o eleitor. “A IA levanta preocupações significativas sobre a capacidade dos cidadãos de discernir o que é real do que é gerado artificialmente. A possibilidade de criar conteúdo falso e convincente, como imagens, vídeos e discursos, representa um desafio considerável. Candidatos podem usar a tecnologia para criar narrativas positivas sobre si mesmos ou para atacar adversários, dificultando o combate à desinformação.”
Ele cita exemplos já comuns nas redes, como imagens manipuladas de políticos com aparência irreal ou vídeos que simulam falas que nunca existiram. “O que antes levava dias ou semanas para produzir, agora pode ser feito em horas. A velocidade e a escala da IA reduzem o tempo de resposta e amplificam o alcance da mentira.”
Nem a grande mídia está imune
O especialista alerta que o problema não se limita aos usuários comuns. Segundo ele, até veículos tradicionais terão dificuldade para validar materiais recebidos. “Hoje, para identificar se uma foto é real ou criada por IA, em muitos cenários é quase chute. É preciso olho treinado, análise de reflexos, texturas, ângulos. Eu lido com isso o dia inteiro e, mesmo assim, muitas vezes não consigo distinguir. Não é óbvio. Para validar de fato, é necessário um corpo técnico com softwares específicos e, ainda assim, alguém pode alegar que houve adulteração”, explica.
Esse cenário, segundo Tod, cria uma inversão perigosa. “Qualquer resposta vira ‘é IA’. Se eu quero desbancar alguém, digo que é falso; se quero me fortalecer, digo que é real. Passa a ser preciso provar o tempo todo que algo aconteceu ou que não aconteceu. Isso é assustador para a democracia.”
Lado positivo
Apesar dos riscos, o especialista defende que a inteligência artificial também pode qualificar o debate público. Ele cita um dado recorrente no meio político: cerca de 80% das mensagens enviadas aos gabinetes de parlamentares não são respondidas.
“Isso é facilmente resolvível com IA. Sistemas de atendimento podem organizar demandas, explicar projetos de lei e aproximar o eleitor do mandato. Também será possível comparar planos de governo, analisar propostas e buscar informações de forma muito mais simples”, diz.
Tod acredita que o eleitor poderá usar a tecnologia a seu favor. “Você poderá pedir para a IA comparar propostas de candidatos e fazer uma análise de alinhamento. Isso é extremamente positivo. Mas precisamos fomentar esse uso para que as pessoas fiscalizem os candidatos e não sejam apenas receptoras de conteúdo.”
Educação digital como saída
Para o especialista, a principal defesa contra a manipulação será o senso crítico. “A responsabilidade individual aumenta. O cidadão terá de questionar a credibilidade das informações e evitar a aceitação imediata de qualquer conteúdo. A integridade do processo eleitoral dependerá da capacidade de validar o que chega ao celular.”

Principais regras do TSE sobre o uso de tecnologia e IA nas eleições de 2026
O Tribunal Superior Eleitoral já regulamentou um conjunto de normas que deverão orientar partidos, candidatos e plataformas digitais no próximo pleito.
A primeira regra é a proibição do uso de deepfakes, conteúdos de áudio ou vídeo gerados ou manipulados digitalmente com o objetivo de beneficiar ou prejudicar candidaturas. A utilização desse tipo de material pode levar à cassação do registro ou do mandato.
Também passa a ser obrigatória a identificação clara sempre que um conteúdo tiver sido produzido ou alterado por inteligência artificial. Imagens, vídeos e textos deverão trazer aviso explícito sobre o uso da tecnologia, para que o eleitor saiba a origem do material.
Outra determinação restringe o emprego de robôs, chatbots ou avatares que simulem diálogo humano com eleitores de forma automatizada, evitando interações artificiais capazes de induzir ou enganar o público.
As plataformas digitais passam a ter responsabilidade direta na remoção imediata de conteúdos falsos, com discurso de ódio ou ataques ao sistema democrático durante o período eleitoral, sob pena de sanções.
As medidas integram a resolução que atualiza as regras de propaganda e combate à desinformação e colocam o Brasil entre os países com legislação mais rigorosa para enfrentar o impacto da inteligência artificial nas eleições.