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Conheça o Riviera, o bairro menos populoso de Curitiba

Com apenas 442 habitantes, o Riviera é o menor dos 75 bairros da Curitiba e fica na Regional CIC
Foto: Valquir Kiu Aureliano/SECOM
Com apenas 442 habitantes, o Riviera é o menor dos 75 bairros da Curitiba e fica na Regional CIC

Redação*

18/02/26
às
17:15

- Atualizado há 11 segundos

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O GPS indicava que o endereço era ali, mas tudo o que dava para ver era uma viçosa plantação de milho que formava uma barreira e se fundia com a área verde do local.

No intervalo do milharal, uma acanhada estradinha de terra dá acesso à casa de Vicente Ales, 77 anos, o morador mais antigo do bairro Riviera, região que exibe uma paisagem interiorana que resiste ao tempo e ao ritmo frenético de outros grandes bairros da capital.

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Com apenas 442 habitantes, o Riviera é o menor dos 75 bairros da Curitiba e fica na Regional CIC. De acordo com o Censo do IBGE de 2022, uma parte deles é descendente de poloneses, que foram os primeiros moradores da região.

Como surgiu

A origem do bairro Riviera está ligada a Colônia Riviére fundada em 1876 e emancipada em 1878 às margens da antiga estrada do Mato Grosso. O nome da colônia veio de uma homenagem ao engenheiro Henrique Riviére por causa dos relevantes serviços prestados à colonização da Província.

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Desfile realizado em 1975 pelos colonos em comemoração ao centenário de criação das colônias Orleans, Riviera, São Miguel e Dom Augusto. Foto: Reprodução/Coleção Bairros de Curitiba/ Casa da Memória

Como todas as demais comunidades polonesas do Paraná, a Colônia Riviera foi criada pelo imperador dom Pedro II. Em 1880, o imperador, acompanhado da família real em visita ao Paraná aproveitou para conferir como os polacos estavam estabelecidos.

Recepção ao imperador

De acordo com relatos históricos da época, em Curitiba, a família real visitou as colônias do Santa Cândida e do Bairro Alto e não passou pela Riviera. Entretanto, toda a gente polonesa, inclusive da Colônia Riviera, foi a pé até a Praça 19 de dezembro para recepcionar o amigo imperador.

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A família real no Paraná em 1880. Dom Pedro II visitou as colônias polonesas nos bairros Santa Cândida e Bairro Alto. Foto: Reprodução/Gazeta do Povo

Um grupo de 21 moças vestidas de branco segurava cartazes e saudava o casal imperial. Estavam ali as jovens representantes das colônias Riviera, Tomás Coelho, Lamenha, Santo Inácio, Nova Tirol, Murici, Santa Cândida, Abranches, Orleans, Alfredo Chaves, Antônio Rebouças, Dom Augusto, Inspetor Carvalho, Venâncio, Zacarias, Argelina, Dom Pedro, Dantes, São João Batista, Dr. Araújo e Santa Felicidade.

Uma vida no bairro

Como a maior parte dos moradores antigos, Vicente Ales nasceu e passou toda a vida no bairro. Ele ganhou o título de decano da região com a morte, há poucos meses, de Antônia Rompa Pepinsky, que alcançou 100 anos.

“Eu devo muita oração para ela. A minha mãe contou que quando eu nasci, essa senhora foi a primeira que me pegou no colo. Era minha babá. A minha mãe sempre falava para respeitar essa gente. Então eu fiquei tão sentido com a perda porque ela tinha 100 anos e era lúcida, sabia de tudo, não era esquecida”, lamenta Vicente.

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Vicente Ales, morador mais antigo do Bairro Riviera. Foto: Hully Paiva/SECOM
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Terra boa, pouco retorno

Recordar os velhos tempos é um dos hábitos mais frequentes dele, principalmente da época que cultivava lavouras. Reclama que agora não consegue mais lidar com plantio. Quando mais jovem, a lida na terra era parte do cotidiano, plantava feijão, milho e batata. Apesar das excelentes colheitas, diz que o esforço pouco compensava, a remuneração era muito baixa.

“Deu bem mesmo, colhemos muito, mas o que adiantou? O preço não ajudou. A terra é boa mas agora não planto mais, porque com 77 anos já não tenho mais força, sinto dor nas costas e muita canseira”, relata.

Queijo artesanal

A produção de queijo artesanal também foi uma atividade econômica importante para a família Ales. Assim como os cereais e legumes, os queijos também eram destinados para o comércio de Curitiba.

“Criamos gado, vacas leiteiras. Eu tive uma vaquinha leiteira que dava 18 litros de manhã e 20 litros à noite. Esta vaquinha ajudou nossas economias. A gente fabricava queijo e vendia para um restaurante do supermercado Kaminski, da Wanda Kaminski. Era supermercado colonial e a gente fornecia a panificação deles, o leite, com nota de saúde pública e tudo mais”, explicou Vicente.

Hoje, o que sobrou de toda a atividade agrícola é a imponente plantação de milho que está quase no ponto de colher e cerca toda a propriedade, que pertence a Vicente e aos outros dois irmãos. São três alqueires de terra que vieram da herança do pai, Francisco Ales.

Banda da família Ales

Além da casa do pai, Vicente herdou dele também o amor pela música. O pai tocava clarinete, o tio, Leonardo Ales, violino, outro tio, Luiz Ales, tocava sanfona. Com tantos talentos juntos, logo nasceu a banda da família Ales, batizada de Banda Gaideski, que animava bailes, casamentos e festas.

“Eu tocava sanfona, bateria, pandeiro. Só não aprendi a tocar violão e nem violino. Gostava das músicas do Tonico e Tinoco, Pedro Bento e Zé da Estrada e Mario Zan”, recordou.

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Foto da banda da família Ales. Foto: Hully Paiva/SECOM

União para construir a capela

Tudo isso agora faz parte do passado. Os moradores mais antigos da região se encontram nas missas que acontecem duas vezes por mês na Capela Nossa Senhora de Fátima ou em reuniões festivas na mercearia de Maria Gertrudes Laskoski, 72 anos, que também mora no bairro Riviera desde que nasceu.

A capela surgiu do interesse dos moradores católicos em ter um local para fazer as orações perto de casa. A comunidade uniu esforços e há 24 anos o templo de madeira foi erguido na Rua Mazuroski, toda decorada com motivos religiosos.

Sextou na mercearia da dona Gerturdes

Os moradores do bairro também já marcaram as sextas-feiras no calendário, porque nesse dia a cozinha de dona Gertrudes funciona a todo vapor. 

Geralmente é um prato único, confeccionado em tacho grande pelo marido, Antônio Rodrigues. No cardápio tem quirera com suã de porco, mocotó e outras iguarias da baixa gastronomia.

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Maria Gertrudes Lascoski e o marido Antônio Rodrigues. Foto: Valquir Kiu Aureliano/SECOM

A pequena mercearia e a cozinha são anexas à casa de Gertrudes, construída em 1962 na Rua Felício Laskoski – nome do seu avô e um dos pioneiros do bairro Riviera. A família á tradicional na região. O pai, Onofre Laskoski, criou os quatro filhos nesta mesma rua. Além de Gerturdes, a família também é formada por Felisberto Lascoski (in memorian), Moisés Modesto Lascoski e Maria Aline Lascoski.

Trabalho, feiras e escola

O sustento vinha do trabalho na agricultura. Parte do cultivo de feijão, batata, milho e legumes era destinado para o consumo da família e o restante era comercializado em feiras livres na Curitiba.

“Meu pai conseguiu comprar uma caminhonete e fomos trabalhar na feira. A gente plantava bastante e vendia na feira que tinha na Lamenha Lins e depois mudou para Avenida Iguaçu”, relatou.

Além da atividade agrícola a família também criava porcos, galinhas, vacas e cavalos. Gertrudes contou que ela e os irmãos dividiam o tempo entre as tarefas e as atividades escolares, primeiro na escola do Passaúna e depois no Colégio Santo Antônio de Orleans, fundado no começo do século 20.

Tesouro da época do império

“Era uma vida boa. A gente trabalhava desde criança, mas tinha a escola e as festas na Igreja Santo Antônio de Orleans”, comentou.

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Os sinos do tempo do Brasil Império ainda soam na Igreja Santo Antônio de Orleans. Foto: Reprodução/Revista Haus

Fundada em 1879 por imigrantes poloneses, a Igreja Santo Antônio de Orleans, guarda um tesouro: dois sinos do tempo do Brasil império, que foram doados por D. Pedro II, durante a visita feita ao Paraná. Em 2023, o templo recebeu iluminação cênica para realçar ainda mais a sua arquitetura.

Vida melhor

Assim como seus três irmãos, Gertrudes nunca quis sair do bairro. Mas diferente das numerosas famílias polonesas de antigamente, ela não teve filhos.

“Eu casei com 48 anos, muito tarde para ter filhos. Mas eu gosto de viver aqui. Agora está muito melhor porque tem ônibus para se locomover e as ruas são melhores. Antigamente só havia carreiros por aqui onde mal passava uma carroça”, relembra.

Segundo ela, agora a comunidade está reivindicando a extensão da linha Riviera até a empresa Tegape Telas. O objetivo é dar mais comodidade aos trabalhadores e atender a necessidade dos novos e antigos moradores.

Mudança de perfil

O bairro Riviera continua mantendo sua característica intimista, mas o perfil das famílias vai mudando aos poucos com a chegada de novos moradores. Gertrudes vê a transformação com um pouco de cautela, mas considera o movimento um reflexo natural dos novos tempos.

“O pessoal vai se casando, no caso da minha família teve um tio que faleceu e os herdeiros venderam a parte deles dos terrenos. E aí veio gente de fora morar aqui. Eu acho isso bom, só que tem gente que eu não conheço e antigamente eu conhecia todo mundo”, lamenta Gertrudes.

*Com informações da Prefeitura de Curitiba

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